terça-feira, 2 de junho de 2009
Das Drogas
Num certo dia vou assistir a uma palestra sobre a 'Marcha da Maconha' e, como não podia deixar de ser, boa parte da comunicação não se limitou apenas legitimar a passeata, mas também visou defender a necessidade de legalização das drogas ilícitas. Eu pessoalmente não sou um consumidor regular ou irregular de entorpecentes. Já tentei ser na minha pré-adolescência, mas não deu muito certo, então abandonei a tentativa. Mas tenho muitos amigos que se mantém fiéis aos seus baseados e simpatizo com a causa, por assim dizer. Isso, porém, não era o que queria falar.
Se alguém já assistiu a alguma dessas defesas da legalização, vai reparar que uma longa série de argumentos são sempre elencados. Dessa vez, os caras falaram das propriedades medicinais da maconha e como ela poderia aliviar a dor dos doentes terminais. Falaram das propriedades nutricionais e como o leite de maconha tinha sei lá quanto de sei lá o quê. Falaram dos usos da maconha para a produção de roupas e papel. Posso estar enganado mas acho que quase ouvi eles falaram da maconha com combustível vegetal. Quem sabe daqui a pouco poderemos ter carros movidos a maconha e em vez da OPEP e um cara de turbante ditando o preço do combustível, nós vamos ter um Rastafari sentado na OMC defendendo a manutenção do preço da cannabis no mercado internacional? Do jeito que os caras falam parece que a maconha é a panacéia do mundo. Vamos legalizar a erva e tudo será lindo e verde.
Aqui eu tenho dois problemas. O primeiro é que essa barboseira toda apenas se aplica à maconha. O rapaz que se pica ou curte uma carreirinha continua na mesma, pois a sua droga não vira camiseta a favor do meio ambiente nem creme de beleza. O segundo é que esses argumentos não persuadem ninguém ou ao menos assim me parece.
Pensa que você é um cara anti-drogas normal. Acha que as drogas não devem ser legalizadas pois são imorais, pois por causa delas há violência e coisas ruins, pois foram eles que fizeram com que sua filha engravidasse aos 16 e seu filho se prostituisse por um Playstation 3 (as drogas fizeram isso, nunca a sua existência estúpida e completa falta de tato pedagógico no trato com os infelizes), pois foram elas que fizeram com que você sem querer acordasse um dia pelado ao lado de um travesti (e não seu desejo reprimido de ser vocês sabem o que) e quais uma outra série de motivos. Tá, talvez esse cara não seja tão normal assim, mas pode esquecer o que disse acima e pensa no teu avô reacionário ou naquele colega de escola ou faculdade.
Pois bem, esse cara, por algum motivo qualquer, vai nesta palestra e vê aquela platéia (que vocês sabem como é) e vê os palestrante (que vocês sabem como são) e o que vocês acham que ele pensa? Mesmo que ele ouvisse este discurso sem estar cercado por um monte de jovem com cara de doidão (como normalmente é o caso), mesmo que ele lê-se num folheto entregue por uma moça vestida de colegial católica, o que ele provavelmente pensaria? Minha opinião é que pensaria: "Essa cambada de maconheiro que me empurrar esses argumentos bonitinhos e científicos, mas sei que no fundo eles querem mesmo é puxar um! Legalizar porra nenhuma!" Vocês acham que não?
Acham que teu avô vai se sensibilizar com usos da maconha no tratamento do glaucoma só porque ele é velho e pode ter glaucoma? Acham que o cara vidrado em saúde vai mudar de opinião por causa das propriedades nutricionais da maconha ou qualquer outra coisa? Claro que não! Se fosse uma questão de argumentos científicos quebrando barreiras de ignorância, a batalha já estaria ganha. Por sinal, se isto funcionasse não teríamos metade dos problemas que temos. Ao menos eu não teria metade dos problemas que eu tenho.
Não adianta tentar agradar todo mundo com uma montanha de pseudo-razões científicas. Sinceramente, quem puxa o movimento a favor da legalização é quem quer poder fumar o bagulho em paz sem preocupação. E não há nada de errado nisso! Claro que quem defende sabe que não tem nada de errado, mas parece que às vezes quer se esconder por detrás de uma motivação que não é o principal motor da luta e o outro lado sabe disso. Os caras são burros, mas nem tanto. Eles sabem que no fundo o que a galera quer é dar um tapinha, portanto o argumento da moralidade nunca vai ser derrubado pelo fato da maconha virar insumo industrial. Afinal, basta que se legalize para uso como matéria-prima industrial e não se legalize para o consumo mais importante, como de fato já acontece em alguns lugares.
A questão principal é: você deve poder fumar, injetar, cheirar, laber, chupar, queimar, ou qualquer outro verbo, qualquer substância que você queira, pois ninguém tem o direito de lhe dizer o que pode fazer ou não com seu próprio corpo. Quem é o Estado ou o deputado tal para me impedir de tomar bala na rave? Ou doce antes daquela trepada foda? Ou uma carreira antes da noitada da madrugada? Ou um dois antes de ter que enfrentar aquele patrão mala? O corpo é meu e posso destruí-lo como bem quiser. Se posso me entupir de McDonalds, Coca-Cola e gordura hidrogenada minha vida inteira, porque não poderia gastar um dia da mesma para ficar doidão de ácido? Que eles enfiem essa falsa moralidade no lugar apropriado.
Não é para defender a legalização das drogas por que o estudo científico tal disse que a droga tal serve como solvente para tinta, pois todo mundo sabe que a luta pela legalização é luta para se poder ficar alterado com substância agora ilícita sem encheção de saco. Paremos de hipocrisia.
Ficou meio confuso e dessa vez não consegui fazer muito piada, mas acho que era isso aí. Em suma, se você defende a legalização, o faça pelo motivo que lhe move, que muito pouco provavelmente é pelo fato da maconha dar um ótimo tônico capilar ou da cocaína desentupir os canais respiratórios.
Se alguém já assistiu a alguma dessas defesas da legalização, vai reparar que uma longa série de argumentos são sempre elencados. Dessa vez, os caras falaram das propriedades medicinais da maconha e como ela poderia aliviar a dor dos doentes terminais. Falaram das propriedades nutricionais e como o leite de maconha tinha sei lá quanto de sei lá o quê. Falaram dos usos da maconha para a produção de roupas e papel. Posso estar enganado mas acho que quase ouvi eles falaram da maconha com combustível vegetal. Quem sabe daqui a pouco poderemos ter carros movidos a maconha e em vez da OPEP e um cara de turbante ditando o preço do combustível, nós vamos ter um Rastafari sentado na OMC defendendo a manutenção do preço da cannabis no mercado internacional? Do jeito que os caras falam parece que a maconha é a panacéia do mundo. Vamos legalizar a erva e tudo será lindo e verde.
Aqui eu tenho dois problemas. O primeiro é que essa barboseira toda apenas se aplica à maconha. O rapaz que se pica ou curte uma carreirinha continua na mesma, pois a sua droga não vira camiseta a favor do meio ambiente nem creme de beleza. O segundo é que esses argumentos não persuadem ninguém ou ao menos assim me parece.
Pensa que você é um cara anti-drogas normal. Acha que as drogas não devem ser legalizadas pois são imorais, pois por causa delas há violência e coisas ruins, pois foram eles que fizeram com que sua filha engravidasse aos 16 e seu filho se prostituisse por um Playstation 3 (as drogas fizeram isso, nunca a sua existência estúpida e completa falta de tato pedagógico no trato com os infelizes), pois foram elas que fizeram com que você sem querer acordasse um dia pelado ao lado de um travesti (e não seu desejo reprimido de ser vocês sabem o que) e quais uma outra série de motivos. Tá, talvez esse cara não seja tão normal assim, mas pode esquecer o que disse acima e pensa no teu avô reacionário ou naquele colega de escola ou faculdade.
Pois bem, esse cara, por algum motivo qualquer, vai nesta palestra e vê aquela platéia (que vocês sabem como é) e vê os palestrante (que vocês sabem como são) e o que vocês acham que ele pensa? Mesmo que ele ouvisse este discurso sem estar cercado por um monte de jovem com cara de doidão (como normalmente é o caso), mesmo que ele lê-se num folheto entregue por uma moça vestida de colegial católica, o que ele provavelmente pensaria? Minha opinião é que pensaria: "Essa cambada de maconheiro que me empurrar esses argumentos bonitinhos e científicos, mas sei que no fundo eles querem mesmo é puxar um! Legalizar porra nenhuma!" Vocês acham que não?
Acham que teu avô vai se sensibilizar com usos da maconha no tratamento do glaucoma só porque ele é velho e pode ter glaucoma? Acham que o cara vidrado em saúde vai mudar de opinião por causa das propriedades nutricionais da maconha ou qualquer outra coisa? Claro que não! Se fosse uma questão de argumentos científicos quebrando barreiras de ignorância, a batalha já estaria ganha. Por sinal, se isto funcionasse não teríamos metade dos problemas que temos. Ao menos eu não teria metade dos problemas que eu tenho.
Não adianta tentar agradar todo mundo com uma montanha de pseudo-razões científicas. Sinceramente, quem puxa o movimento a favor da legalização é quem quer poder fumar o bagulho em paz sem preocupação. E não há nada de errado nisso! Claro que quem defende sabe que não tem nada de errado, mas parece que às vezes quer se esconder por detrás de uma motivação que não é o principal motor da luta e o outro lado sabe disso. Os caras são burros, mas nem tanto. Eles sabem que no fundo o que a galera quer é dar um tapinha, portanto o argumento da moralidade nunca vai ser derrubado pelo fato da maconha virar insumo industrial. Afinal, basta que se legalize para uso como matéria-prima industrial e não se legalize para o consumo mais importante, como de fato já acontece em alguns lugares.
A questão principal é: você deve poder fumar, injetar, cheirar, laber, chupar, queimar, ou qualquer outro verbo, qualquer substância que você queira, pois ninguém tem o direito de lhe dizer o que pode fazer ou não com seu próprio corpo. Quem é o Estado ou o deputado tal para me impedir de tomar bala na rave? Ou doce antes daquela trepada foda? Ou uma carreira antes da noitada da madrugada? Ou um dois antes de ter que enfrentar aquele patrão mala? O corpo é meu e posso destruí-lo como bem quiser. Se posso me entupir de McDonalds, Coca-Cola e gordura hidrogenada minha vida inteira, porque não poderia gastar um dia da mesma para ficar doidão de ácido? Que eles enfiem essa falsa moralidade no lugar apropriado.
Não é para defender a legalização das drogas por que o estudo científico tal disse que a droga tal serve como solvente para tinta, pois todo mundo sabe que a luta pela legalização é luta para se poder ficar alterado com substância agora ilícita sem encheção de saco. Paremos de hipocrisia.
Ficou meio confuso e dessa vez não consegui fazer muito piada, mas acho que era isso aí. Em suma, se você defende a legalização, o faça pelo motivo que lhe move, que muito pouco provavelmente é pelo fato da maconha dar um ótimo tônico capilar ou da cocaína desentupir os canais respiratórios.
sábado, 16 de maio de 2009
A revolução de Jacques Prévert
há um poeta imóvel
no meio da rua.
não é anjo bobo
que vive de brisa,
nem é canibal
que come carne crua.
não vende gravatas,
não prega sermão,
não teme o inferno,
não reclama o céu.
é um poeta apenas
sob seu chapéu.
à sua volta, o trânsito
escorre, raivoso,
e o semáforo muda,
célere, os sinais.
mas o poeta não sai
de seu lugar. jamais.
diz um padre: - “é pecador.
blasfemou, praticou
fornicação, assalto.
por castigo ficou
atado ao asfalto.”
diz um rico: - “é anarquista,
que mastiga pólvora,
que bebe cerveja
e espera a explosão
da bomba sobre a igreja.”
diz um soldado: - “ é agente
de potência estrangeira.
aguarda seus cúmplices,
ocultos em algum
lugar desta ladeira.”
diz um doutor: - “ é vítima
de mal perigoso.
está paralítico,
ou talvez nefrítico,
ou então leproso.”
ante notícias
tão contraditórias,
há queda na bolsa,
pânico na sé.
cai o ministério,
e foge o doutor,
o padre, o soldado,
o rico, o ministro,
o governador.
sem donos, o povo
livra-se de impostos,
sem padres, o povo
livra-se da missa,
sem doutores, o povo
livra-se da morte.
as ruas se animam
de vozes, de cores,
de pessoas, pregões,
abraços, canções.
e, no meio da rua,
sob seu chapéu,
sob o azul do céu,
o poeta sorri, completo,
feliz.
José Paulo Paes
no meio da rua.
não é anjo bobo
que vive de brisa,
nem é canibal
que come carne crua.
não vende gravatas,
não prega sermão,
não teme o inferno,
não reclama o céu.
é um poeta apenas
sob seu chapéu.
à sua volta, o trânsito
escorre, raivoso,
e o semáforo muda,
célere, os sinais.
mas o poeta não sai
de seu lugar. jamais.
diz um padre: - “é pecador.
blasfemou, praticou
fornicação, assalto.
por castigo ficou
atado ao asfalto.”
diz um rico: - “é anarquista,
que mastiga pólvora,
que bebe cerveja
e espera a explosão
da bomba sobre a igreja.”
diz um soldado: - “ é agente
de potência estrangeira.
aguarda seus cúmplices,
ocultos em algum
lugar desta ladeira.”
diz um doutor: - “ é vítima
de mal perigoso.
está paralítico,
ou talvez nefrítico,
ou então leproso.”
ante notícias
tão contraditórias,
há queda na bolsa,
pânico na sé.
cai o ministério,
e foge o doutor,
o padre, o soldado,
o rico, o ministro,
o governador.
sem donos, o povo
livra-se de impostos,
sem padres, o povo
livra-se da missa,
sem doutores, o povo
livra-se da morte.
as ruas se animam
de vozes, de cores,
de pessoas, pregões,
abraços, canções.
e, no meio da rua,
sob seu chapéu,
sob o azul do céu,
o poeta sorri, completo,
feliz.
José Paulo Paes
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Os muros da discórdia
Abaixo nota assinada por movimentos sociais e organismos de Direitos Humanos
NOTA: CONTRA O APARTHEID DOS MUROS CARIOCAS
Foi na década de setenta do século passado, durante o apartheid racial na África do Sul, que nasceu a idéia de utilizar veículos blindados para gerir o controle de populações urbanas. Chamado de “Yellow Mellow”, este blindado, que hoje se encontra no Museu do Apartheid, se tornou referência mundial para as estratégias de militarização de áreas urbanas segregadas, inspirando, em conseqüência disso, a ascensão da atual “política caveirão” por parte das autoridades públicas brasileiras.
Se o “Caveirão” é hoje o grande emblema do modelo militarizado de segurança pública que vem encharcando de sangue favelas do Rio de Janeiro, o recentemente anunciado projeto de levantamento de 11 quilômetros de barreiras de concreto no entorno de 11 comunidades é um sintoma claro do processo de criminalização da pobreza que vem permitindo afirmar a figura legitimadora da “vida descartável”. Além de muros de 3 metros de altura, o Governo do Estado pretende erguer muros "virtuais": um sistema de monitoramento com imagens de satélite para fiscalizar os espaços populares. O argumento oficial é a contenção da devastação da Mata Atlântica pela expansão das favelas, com os muros recebendo o nome de “ecolimites” – uma jogada macabra que utiliza uma bandeira ambiental para legitimar estratégias que reforçam a atual lógica do apartheid social.
No último sábado, dia 25 de abril, foi realizado um plebiscito pela associação de moradores da Rocinha para consultar a opinião da população sobre o projeto dos muros nas favelas. Na votação, a obra foi rejeitada por 1.056 pessoas. Apenas 50 votaram a favor e cinco anularam o voto. Ao tomar conhecimento da pesquisa, o prefeito Eduardo Paes não titubeou em classificar o resultado como “suspeitíssimo”, buscando deslegitimar o plebiscito usando a velha tática de criminalizar as organizações populares das favelas. Assim também foi a repercussão dada à correta deliberação da FAFERJ – Federação das Associações de Favela do Estado do Rio de Janeiro – que rechaça a suspensão dos muros.
As entidades de Direitos Humanos, militantes sociais e pessoas preocupadas com os claros indícios e sinais de cristalização de segregação social, vem a público se manifestar em apoio à posição da FAFERJ e se comprometem em lutar, juntos, contra toda forma de criminalização da pobreza e dos movimentos de resistência. CONTRA O APARTHEID CARIOCA: NÃO AOS MUROS!
NOTA: CONTRA O APARTHEID DOS MUROS CARIOCAS
Foi na década de setenta do século passado, durante o apartheid racial na África do Sul, que nasceu a idéia de utilizar veículos blindados para gerir o controle de populações urbanas. Chamado de “Yellow Mellow”, este blindado, que hoje se encontra no Museu do Apartheid, se tornou referência mundial para as estratégias de militarização de áreas urbanas segregadas, inspirando, em conseqüência disso, a ascensão da atual “política caveirão” por parte das autoridades públicas brasileiras.
Se o “Caveirão” é hoje o grande emblema do modelo militarizado de segurança pública que vem encharcando de sangue favelas do Rio de Janeiro, o recentemente anunciado projeto de levantamento de 11 quilômetros de barreiras de concreto no entorno de 11 comunidades é um sintoma claro do processo de criminalização da pobreza que vem permitindo afirmar a figura legitimadora da “vida descartável”. Além de muros de 3 metros de altura, o Governo do Estado pretende erguer muros "virtuais": um sistema de monitoramento com imagens de satélite para fiscalizar os espaços populares. O argumento oficial é a contenção da devastação da Mata Atlântica pela expansão das favelas, com os muros recebendo o nome de “ecolimites” – uma jogada macabra que utiliza uma bandeira ambiental para legitimar estratégias que reforçam a atual lógica do apartheid social.
No último sábado, dia 25 de abril, foi realizado um plebiscito pela associação de moradores da Rocinha para consultar a opinião da população sobre o projeto dos muros nas favelas. Na votação, a obra foi rejeitada por 1.056 pessoas. Apenas 50 votaram a favor e cinco anularam o voto. Ao tomar conhecimento da pesquisa, o prefeito Eduardo Paes não titubeou em classificar o resultado como “suspeitíssimo”, buscando deslegitimar o plebiscito usando a velha tática de criminalizar as organizações populares das favelas. Assim também foi a repercussão dada à correta deliberação da FAFERJ – Federação das Associações de Favela do Estado do Rio de Janeiro – que rechaça a suspensão dos muros.
As entidades de Direitos Humanos, militantes sociais e pessoas preocupadas com os claros indícios e sinais de cristalização de segregação social, vem a público se manifestar em apoio à posição da FAFERJ e se comprometem em lutar, juntos, contra toda forma de criminalização da pobreza e dos movimentos de resistência. CONTRA O APARTHEID CARIOCA: NÃO AOS MUROS!
sábado, 2 de maio de 2009
A legitimidade do terrorismo no plano internacional
Este texto surgiu de uma brincadeira na faculdade. A rígida professora de Metodologia da pesquisa jurídica pediu que cada aluno apresentasse oralmente seu tema para a monografia. Eu e um amigo da turma (que faz parte desse blog porém não quer se identificar, não sei o porque, mas também não se pergunta o porque de alguém não querer se identificar..) combinamos de apresentar temas “estranhos” , só para ‘sacanear’. Ele apresentaria o tema “amor e Direito” e eu “a legitimidade do terrorismo no plano internacional”. A brincadeira serviria também para causar reflexões na turma. Para nossa felicidade, a professora esqueceu-se dessa tarefa e não exigiu a apresentação. Para que o pensamento não se perca eu resolvi escrever. Os pensamentos que se seguem são produtos da insânia. Alguns poucos bons argumentos surgirão no meio das asneiras. Sem problema, a asneira é a melhor forma de causar uma reflexão. Quem nunca refletiu após ler uma pérola do Diogo Mainardi? Ou ouvir uma do Pelé?
Toda lei é justa? Essa é a pergunta mais comprometedora para o Direito e seus filósofos da razão legislativa. Ninguém jamais ousou respondê-la de forma afirmativa. Não. Nem toda lei é justa. Para os anarquistas, o indivíduo só deve seguir a uma lei que ele próprio ajudou a ‘escrever’; sendo este meio de produção legislativa (com participação de todos), o único com legitimidade para criar uma regulação objetiva da liberdade. Mas não vivemos em um “estado anarquista” (você sabe o porquê das aspas!). A democracia representativa, base de legitimação dos estados contemporâneos, possui seus meios próprios de construção do direito. Alguns decidem, e os outros exercem sua liberdade de acatar as decisões. Ah! Mas e o voto secreto, direto e universal?? Esse é o direito de escolher o molho com o qual seremos devorados. Se mudasse alguma coisa, seria proibido.
O que fazer então quando nos deparamos com uma lei injusta? A resistência pacífica é a primeira alternativa, mas será facilmente reprimida como sempre foi em toda a história da humanidade, com raras e belas exceções. Nesses casos a violência é o único meio de alcançar os objetivos. Alguns exemplos são as revoluções francesa, haitiana e americana. Do ponto de vista da ordem legal anterior essas ações eram vistas como terroristas; devido a globalização e a nova dinâmica internacional se faz necessária um expansão desse argumento tendo a ordem jurídica internacional como plano de fundo. Assim os grupos fundamentalistas islâmicos estão lutando pela instauração de um mundo mais justo a partir de seu ponto de vista. Uma ação é considerada terrorista tomando-se sempre um dado paradigma e utilizando a teoria do livre arbítrio para avaliar as condutas humanas. O livre arbítrio é a possibilidade de escolha entre o bem e o mal, os conhecendo como tal. Dessa forma o determinismo de quem delinqüe é equivalente ao determinismo de quem pune.
Do ponto de vista de uma minhoca um prato de macarrão é uma orgia. Claro que um prato de macarrão não deixará de ser um prato de macarrão só porque a minhoca é retardada, míope ou tarada. Se ela olhar de longe, dirá: “eba! Uma orgia! Me dei bem!”, mas ao se aproximar verá que não era bem o que estava pensando. E algum ser humano dotado de ‘razão superior’ dirá “isso é macarrão!”. Claro que a minhoca não concordará, afinal, o que é macarrão? Não faz sentido chamar aquilo de macarrão. A minhoca dirá que aquilo é.....sei lá, “thubaruba”! Isso! A minhoca vira e fala: “isso não é macarrão, é thubaruba!”. Então o ser humano irá impor à força sua sabedoria, obrigando a minhoca a aceitar que aquilo é macarrão. Então a minhoca será obrigada a ‘mofar’ se transformando na minhoca do Worms, sacará sua bazuca e entrará em guerra com os homens. A língua é também uma lei, uma codificação. Aceita em determinado espaço e tempo. Estar obrigado a seguir uma lei é estar condicionado à uma realidade. Aceitar isso é uma questão de opção política. Cabe a cada um decidir.
Perguntas:
E se as leis forem proibidas por lei? Então só os fora-da-lei terão leis.
E se o casamento for proibido por lei? Então só os fora-da-lei terão sogro e cunhado.
Será que valeria a pena ser um fora-da-lei?
Toda lei é justa? Essa é a pergunta mais comprometedora para o Direito e seus filósofos da razão legislativa. Ninguém jamais ousou respondê-la de forma afirmativa. Não. Nem toda lei é justa. Para os anarquistas, o indivíduo só deve seguir a uma lei que ele próprio ajudou a ‘escrever’; sendo este meio de produção legislativa (com participação de todos), o único com legitimidade para criar uma regulação objetiva da liberdade. Mas não vivemos em um “estado anarquista” (você sabe o porquê das aspas!). A democracia representativa, base de legitimação dos estados contemporâneos, possui seus meios próprios de construção do direito. Alguns decidem, e os outros exercem sua liberdade de acatar as decisões. Ah! Mas e o voto secreto, direto e universal?? Esse é o direito de escolher o molho com o qual seremos devorados. Se mudasse alguma coisa, seria proibido.
O que fazer então quando nos deparamos com uma lei injusta? A resistência pacífica é a primeira alternativa, mas será facilmente reprimida como sempre foi em toda a história da humanidade, com raras e belas exceções. Nesses casos a violência é o único meio de alcançar os objetivos. Alguns exemplos são as revoluções francesa, haitiana e americana. Do ponto de vista da ordem legal anterior essas ações eram vistas como terroristas; devido a globalização e a nova dinâmica internacional se faz necessária um expansão desse argumento tendo a ordem jurídica internacional como plano de fundo. Assim os grupos fundamentalistas islâmicos estão lutando pela instauração de um mundo mais justo a partir de seu ponto de vista. Uma ação é considerada terrorista tomando-se sempre um dado paradigma e utilizando a teoria do livre arbítrio para avaliar as condutas humanas. O livre arbítrio é a possibilidade de escolha entre o bem e o mal, os conhecendo como tal. Dessa forma o determinismo de quem delinqüe é equivalente ao determinismo de quem pune.
Do ponto de vista de uma minhoca um prato de macarrão é uma orgia. Claro que um prato de macarrão não deixará de ser um prato de macarrão só porque a minhoca é retardada, míope ou tarada. Se ela olhar de longe, dirá: “eba! Uma orgia! Me dei bem!”, mas ao se aproximar verá que não era bem o que estava pensando. E algum ser humano dotado de ‘razão superior’ dirá “isso é macarrão!”. Claro que a minhoca não concordará, afinal, o que é macarrão? Não faz sentido chamar aquilo de macarrão. A minhoca dirá que aquilo é.....sei lá, “thubaruba”! Isso! A minhoca vira e fala: “isso não é macarrão, é thubaruba!”. Então o ser humano irá impor à força sua sabedoria, obrigando a minhoca a aceitar que aquilo é macarrão. Então a minhoca será obrigada a ‘mofar’ se transformando na minhoca do Worms, sacará sua bazuca e entrará em guerra com os homens. A língua é também uma lei, uma codificação. Aceita em determinado espaço e tempo. Estar obrigado a seguir uma lei é estar condicionado à uma realidade. Aceitar isso é uma questão de opção política. Cabe a cada um decidir.
Perguntas:
E se as leis forem proibidas por lei? Então só os fora-da-lei terão leis.
E se o casamento for proibido por lei? Então só os fora-da-lei terão sogro e cunhado.
Será que valeria a pena ser um fora-da-lei?
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Os Seres
Num bar ao lado de um cinema descolado na capital fluminense, o segurança local olha atentamente para um morador de rua que caminhando se aproxima e para perto da entrada do local.
- Não pode ficar aqui não, vai saindo. - prontamente enuncia o defensor do espaço público (privado)
- Só tô parado na porta daqui. Não tô importunando ninguém.
- Mesmo assim vou pedir para que se retire. Sai. Está atrapalhando os clientes.
- Com esse tipo de atitude os seres vão te pegar.
- Tá maluco porra! Tá dizendo que vai me me pegar? Você vai me pegar?
- Eu não. Os seres.
- Que merda é essa?! Tá me ameaçando caralho? Te quebro!
- Eu não disse que ia te pegar, disse que os seres iam te pegar.
- Você quer cair na mão comigo?
- Eu não. Disse para tomar cuidado com os seres, não comigo.
- Tá me tirando!? Que porra é essa de "seres"? Você é "os seres"? Você quer cair dentro?
- Eu não. Os seres é que vão te pegar se continuar tratando gente que nem eu assim.
- E quem são esses "seres"? Se for você, pode vir que te parto aqui e agora.
- Eu não. Os seres é que vão te pegar.
- Que porra é essa de "os seres"!?
- Os seres são como eu, invisíveis. Eles ficam nos cantos escuros das cidades, jogados na sarjeta e transitam como se não fossem. Ninguém os vê, ninguém repara na sua existência. Ninguém se choca mais. Fazemos parte da paisagem. Nos movemos como larvas e ratos. Nos esgueiramos pelas brechas e rachaduras do concreto e comemos o resto, o lixo, aquilo que você cuspiu. Seu dejeto é o nosso alimento e aquilo que você rejeita, destrói e descarta é o que nos mantém vivos. Mas os seres estão atentos. Sabemos o que vocês (não) pensam de nós. Um dia os seres podem se voltar contra você, mas não por ódio ou inveja. Já conhecemos seu jogo e sua sociedade e não queremos fazer parte dela e é por isso que você deve tomar cuidado. Nosso desprezo é nossa principal arma, mas não é a única. Cuidado com os seres.
No meio da fala o segurança já ignorava o mendigo e já tinha ido embora pegar uma madeira para expulsá-lo "debaixo de vara". Não poderia aturar um sujo falando esse monte de baboseira atrapalhando o negócio do patrão. Enquanto ia pegar seu porrete continuava ouvindo a voz do vagabundo ao fundo, mas sem prestar atenção nas palavras. Quanto reapareceu na porta não ouviu mais nada, apesar de ter certeza que há pouco ainda ouvia a voz, apenas sentiu o cheiro de lixo, carne putrefata e as sombras da cidade um pouco mais escuras.
- Não pode ficar aqui não, vai saindo. - prontamente enuncia o defensor do espaço público (privado)
- Só tô parado na porta daqui. Não tô importunando ninguém.
- Mesmo assim vou pedir para que se retire. Sai. Está atrapalhando os clientes.
- Com esse tipo de atitude os seres vão te pegar.
- Tá maluco porra! Tá dizendo que vai me me pegar? Você vai me pegar?
- Eu não. Os seres.
- Que merda é essa?! Tá me ameaçando caralho? Te quebro!
- Eu não disse que ia te pegar, disse que os seres iam te pegar.
- Você quer cair na mão comigo?
- Eu não. Disse para tomar cuidado com os seres, não comigo.
- Tá me tirando!? Que porra é essa de "seres"? Você é "os seres"? Você quer cair dentro?
- Eu não. Os seres é que vão te pegar se continuar tratando gente que nem eu assim.
- E quem são esses "seres"? Se for você, pode vir que te parto aqui e agora.
- Eu não. Os seres é que vão te pegar.
- Que porra é essa de "os seres"!?
- Os seres são como eu, invisíveis. Eles ficam nos cantos escuros das cidades, jogados na sarjeta e transitam como se não fossem. Ninguém os vê, ninguém repara na sua existência. Ninguém se choca mais. Fazemos parte da paisagem. Nos movemos como larvas e ratos. Nos esgueiramos pelas brechas e rachaduras do concreto e comemos o resto, o lixo, aquilo que você cuspiu. Seu dejeto é o nosso alimento e aquilo que você rejeita, destrói e descarta é o que nos mantém vivos. Mas os seres estão atentos. Sabemos o que vocês (não) pensam de nós. Um dia os seres podem se voltar contra você, mas não por ódio ou inveja. Já conhecemos seu jogo e sua sociedade e não queremos fazer parte dela e é por isso que você deve tomar cuidado. Nosso desprezo é nossa principal arma, mas não é a única. Cuidado com os seres.
No meio da fala o segurança já ignorava o mendigo e já tinha ido embora pegar uma madeira para expulsá-lo "debaixo de vara". Não poderia aturar um sujo falando esse monte de baboseira atrapalhando o negócio do patrão. Enquanto ia pegar seu porrete continuava ouvindo a voz do vagabundo ao fundo, mas sem prestar atenção nas palavras. Quanto reapareceu na porta não ouviu mais nada, apesar de ter certeza que há pouco ainda ouvia a voz, apenas sentiu o cheiro de lixo, carne putrefata e as sombras da cidade um pouco mais escuras.
Livremente baseado na obra 'Os Seres' de El Efecto.
sábado, 4 de abril de 2009
Galeano e Reunião do G-20
Comentários do escritor uruguaio sobre a "solução" para a crise proposta na reunião do G-20 de se destinar R$1 trilhão para os organismos financeiros internacionais (FMI e Banco Mundial, por exemplo): Estas entidades não são organismos internacionais pois não representam a "vontade do mundo", mas sim a dos "donos do mundo, que são os que estão empurrando o planeta para o abismo. (...) São os que impuseram, justamente, por meio do BM e do FMI, a religião do mercado, são os que fizereram purê do Estado, e os que obrigaram o povo a dançar a salsa ao ritmo da orquestra do Titanic. (...) com todo o dinheiro que os culpados pela quebra universal estão recebendo seria possível acabar com a fome no mundo."
quarta-feira, 1 de abril de 2009
1° de Abril de 1964 - O dia que ainda não terminou
Os golpistas – incluída toda a imprensa, menos a Última Hora – insistiam em dizer que a data era 31 de março; nós, que era primeiro de abril. Ainda mais que eles tentavam dizer que tinha sido uma “revolução”, confessando o prestigio da palavra revolução – até ali identificado com a revolução cubana.
O que são 45 anos – transcorridos desde aquele primeiro de abril até hoje? O que foi aquilo? O que restou daquilo?
Medido no tempo, parece algo distante. Afinal, tinham transcorridos apenas 34 anos desde a revolução de 30 - o momento de maior ruptura progressista na história brasileira. Período que incluiu os 15 anos do primeiro governo de Getúlio e os 19 de democracia liberal, incluídos os 4 do novo mandato de Getúlio e os 5 do JK.Nem é necessário discorrer muito para dizer que se tratou de um golpe militar, que introduziu uma ditadura militar.
Nem a “ditabranda” da FSP (Força Serra Presidente), nem o “autoritarismo” de FHC – todas tentativas de suavizar o regime. Um regime dirigido formal e realmente pela alta oficialidade das FFAA, que reorganizou o Estado em torno dessas instituições, tendo o SNI como seu instrumento de militarização das relações sociais. Um regime que atuou politicamente a favor da hegemonia do grande capital nacional e internacional. Para isso, entre suas primeiras medidas estiveram a intervenção militar em todos os sindicatos e o arrocho salarial – a proibição de qualquer campanha salarial, sonho de todo grande empresário.
Para que se criasse um clima que desembocou no golpe militar, foi montada uma campanha de desestabilização que – hoje se sabe, pelas atas do Senado dos EUA – tinha sua condução diretamente naquele país, com participação direta do então embaixador norte-americano e a cumplicidade ativa da grande mídia – que até hoje não fizeram autocrítica do papel ditatorial que tiveram, nem mesmo a FSP, que emprestou seus carros para ações repressivas da Oban -, somada às mobilizações feitas pela Igreja Católica e pelos partidos de direita – com o lacerdismo moralizante na cabeça.
Nunca como naquele período as grandes empresas privadas lucraram tanto. Foram elas as maiores beneficiárias da repressão – prisões arbitrárias, torturas, fuzilamentos, desaparições, entre outras formas de violência de um regime do terror. Foram o setor economicamente hegemônico durante a ditadura –ao contrário da visão inconsistente de FHC, de que uma suposta “burguesia de Estado” seria o setor hegemônico, para absolver os grandes monopólios nacionais e internacionais.O Brasil vinha vivendo um processo importante de democratização social, política e cultural. O movimento sindical se expandia, os funcionários públicos passavam a incorporar-se a ele, os militares de baixa graduação passavam a poder se organizar e se candidatar ao Parlamento, se desenvolvia a sindicalização rural, acelerava-se a criação de uma forte e diversificada cultural popular – no cinema, no teatro, nas artes plásticas, -, um movimento editorial de esquerda se fortalecia muito.Foi para brecar a construção da democracia que o golpe foi dado.
Com um caráter abertamente antidemocrático e fortemente antipopular – como as decisões imediatas contra os sindicatos e campanhas salariais demonstram -, foi um instrumento do grande capital e da estratégia de guerra fria dos EUA na região.1964 se constituiu em um momento de forte inflexão na história brasileira. O modelo de desenvolvimento industrial passou a se centrar na produção para a alta esfera do consumo e a para a exportação, acentuando a concentração de renda e a desigualdade social, assim como a dependência.O Brasil que saiu da ditadura, 21 anos depois, era um país diferente daquele de 1964. As organizações democráticas e populares haviam sido duramente golpeadas.
A imprensa havia sido depurada dos órgãos de esquerda. (Não esquecer que a resistência na imprensa foi feita pela chamada imprensa nanica, por si só uma denúncia da imprensa tradicional.) O país havia se transformado no mais desigual do continente mais desigual do mundo.Vários dirigentes da ditadura ainda andam por aí, junto com seus filhos e netos, dando lições de democracia, sendo entrevistados e escrevendo artigos na imprensa. A imprensa não dirá nada ou tentará, uma vez mais, se passar por vítima da ditadura, escondendo o papel real que desempenhou. (Que tal republicar as manchetes de cada órgão naquele primeiro de abril de 1964?)
Na resistência e na oposição à ditadura se provou quem era e é democrata no Brasil.
Por Emir Sader
O que são 45 anos – transcorridos desde aquele primeiro de abril até hoje? O que foi aquilo? O que restou daquilo?
Medido no tempo, parece algo distante. Afinal, tinham transcorridos apenas 34 anos desde a revolução de 30 - o momento de maior ruptura progressista na história brasileira. Período que incluiu os 15 anos do primeiro governo de Getúlio e os 19 de democracia liberal, incluídos os 4 do novo mandato de Getúlio e os 5 do JK.Nem é necessário discorrer muito para dizer que se tratou de um golpe militar, que introduziu uma ditadura militar.
Nem a “ditabranda” da FSP (Força Serra Presidente), nem o “autoritarismo” de FHC – todas tentativas de suavizar o regime. Um regime dirigido formal e realmente pela alta oficialidade das FFAA, que reorganizou o Estado em torno dessas instituições, tendo o SNI como seu instrumento de militarização das relações sociais. Um regime que atuou politicamente a favor da hegemonia do grande capital nacional e internacional. Para isso, entre suas primeiras medidas estiveram a intervenção militar em todos os sindicatos e o arrocho salarial – a proibição de qualquer campanha salarial, sonho de todo grande empresário.
Para que se criasse um clima que desembocou no golpe militar, foi montada uma campanha de desestabilização que – hoje se sabe, pelas atas do Senado dos EUA – tinha sua condução diretamente naquele país, com participação direta do então embaixador norte-americano e a cumplicidade ativa da grande mídia – que até hoje não fizeram autocrítica do papel ditatorial que tiveram, nem mesmo a FSP, que emprestou seus carros para ações repressivas da Oban -, somada às mobilizações feitas pela Igreja Católica e pelos partidos de direita – com o lacerdismo moralizante na cabeça.
Nunca como naquele período as grandes empresas privadas lucraram tanto. Foram elas as maiores beneficiárias da repressão – prisões arbitrárias, torturas, fuzilamentos, desaparições, entre outras formas de violência de um regime do terror. Foram o setor economicamente hegemônico durante a ditadura –ao contrário da visão inconsistente de FHC, de que uma suposta “burguesia de Estado” seria o setor hegemônico, para absolver os grandes monopólios nacionais e internacionais.O Brasil vinha vivendo um processo importante de democratização social, política e cultural. O movimento sindical se expandia, os funcionários públicos passavam a incorporar-se a ele, os militares de baixa graduação passavam a poder se organizar e se candidatar ao Parlamento, se desenvolvia a sindicalização rural, acelerava-se a criação de uma forte e diversificada cultural popular – no cinema, no teatro, nas artes plásticas, -, um movimento editorial de esquerda se fortalecia muito.Foi para brecar a construção da democracia que o golpe foi dado.
Com um caráter abertamente antidemocrático e fortemente antipopular – como as decisões imediatas contra os sindicatos e campanhas salariais demonstram -, foi um instrumento do grande capital e da estratégia de guerra fria dos EUA na região.1964 se constituiu em um momento de forte inflexão na história brasileira. O modelo de desenvolvimento industrial passou a se centrar na produção para a alta esfera do consumo e a para a exportação, acentuando a concentração de renda e a desigualdade social, assim como a dependência.O Brasil que saiu da ditadura, 21 anos depois, era um país diferente daquele de 1964. As organizações democráticas e populares haviam sido duramente golpeadas.
A imprensa havia sido depurada dos órgãos de esquerda. (Não esquecer que a resistência na imprensa foi feita pela chamada imprensa nanica, por si só uma denúncia da imprensa tradicional.) O país havia se transformado no mais desigual do continente mais desigual do mundo.Vários dirigentes da ditadura ainda andam por aí, junto com seus filhos e netos, dando lições de democracia, sendo entrevistados e escrevendo artigos na imprensa. A imprensa não dirá nada ou tentará, uma vez mais, se passar por vítima da ditadura, escondendo o papel real que desempenhou. (Que tal republicar as manchetes de cada órgão naquele primeiro de abril de 1964?)
Na resistência e na oposição à ditadura se provou quem era e é democrata no Brasil.
Por Emir Sader
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